

Projeto Multimídia desenvolvido por seis alunas
do último ano de Jornalismo da
Universidade Metodista de Piracicaba
O conhecimento a um clique
Entre dois mundos
Material retirado do lixo faz surgir novo tipo de arte contemporânea
Mylena Arruda
Antes da abordagem das estratégias mobilizadas para a produção da notícia, torna-se necessário discutir as relações entre o jornalista científico e a linguagem, sendo frequentes as análises que focam o jornalista como um profissional que desempenha a função de mediador entre o discurso produzido pela ciência e o público leigo. Neste sentido, são constantes as referências bibliográficas que apontam os comunicadores sociais como agentes de um trabalho com as palavras comumente denominado de “tradução interlinguística” (Pereira, 2002).
A Linguagem do Jornalismo Científico
Cláudio Bertolli Filho*

Neide Carlos/Jornal
da Cidade de Bauru/divulgação
O empenho em produzir textos endereçados ao “leitor comum” remete os questionamentos para uma das mais discutíveis e corriqueiras observações sobre a prática do jornalismo científico: é o profissional atuante nesta área apenas um “tradutor” (esse é o termo comumente utilizado pela maior parte das análises) do discurso científico para um vocabulário inteligível pelo homem do povo? (Praticco, 2003).
Para a linguista Lílian Zamboni tal afirmação se mostra errônea, advogando que o discurso de divulgação científica não se apresenta como “um discurso da ciência degradado”, mas sim que se constitui em ou outro e autônomo gênero textual, essencialmente diferenciado do discurso originário, isto é, do texto que lhe deu origem. Acrescenta a mesma autora: “O que defendo, portanto, é a ideia de que o discurso de divulgação científica constitui um gênero de discurso científico, resultado de um efetivo trabalho de formulação discursiva, no qual se revela uma ação comunicativa que parte de um ‘outro’ discurso e se dirige para ‘outro’ destinatário (Zamboni, 2001, p. xviiixix).
Com esta afirmação, a autora invocada mostra-se tributária dos posicionamentos assumidos
por Maingueneau (1989) e Authier- Revuz (1998) ao reiterar que o discurso divulgador da ciência não é uma adaptação do discurso-fonte, mas sim algo novo e original. Por outro lado, Zamboni também se refere aos receptores do discurso, ressaltando a diferença de alvo entre as duas falas: o cientista dirige-se aos seus pares, enquanto que o jornalista busca comunicar-se com o “público leigo” que, para o também linguista José Horta Nunes (2003, p. 44-45), corresponde à imagem idealizada de “um homem aberto, curioso pelas ciências, inteligente e consciente de sua distância em relação aos especialistas”.
Cabe ressaltar ainda que, para melhor comunicar os fatos da ciência, os jornalistas recorrem a múltiplas estratégias permitidas pela linguagem, inclusive uma profusão de metáforas e analogias. O emprego de tais recursos são, via de regra, execrados pelos cientistas que, com frequência, afirmam que “não declararam” aquilo que aparece na imprensa como sendo fruto de seu depoimento e, mais ainda, que o uso de metáforas e analogias pode levar a erros e simplificações interpretativas de suas idéias e, em resultado, deporem contra o próprio entrevistado e a equipe de pesquisadores da qual faz parte. Na verdade, como expus em outro texto (Bertolli Filho, 2000), tal como as ideologias, recursos de linguagem como os mencionados se tornam realmente eficientes quando o enunciador não mais guarda consciência de seu uso. Tomando-se como exemplo o discurso da imunologia, há mais de um século os especialistas vêm utilizando um vasto arsenal de metáforas e isto se tornou tão corriqueiro naquela área do saber que, sem qualquer constrangimento, muitos pesquisadores não mais percebem o seu emprego, notando a presença de tal dispositivo provisório da linguagem apenas nos textos e falas de outros locutores (Löwy, 1996). Frente a isto, acredita-se serem frágeis as argumentações que buscam desqualificar a importância do jornalismo científico devido as estratégias discursivas que comumente os comunicadores lançam mão.
Outro ponto que está articulado com a questão da linguagem do jornalismo científico localiza-se no afã do divulgador em estabelecer sintonia com um público que o emissor nutre uma imagem demasiadamente imprecisa, quer o considerando com a mesma capacidade que o locutor para a intelecção de assuntos geralmente complexos, quer como alguém destituído de potencialidade para entender o vocabulário básico da ciência ou mesmo da língua do seu país. Neste sentido, é comum deparar-se com matérias que, pelo uso de jargões próprios de uma especialidade científica ou ainda pela recorrência a termos por demais genéricos, resultam em notícias de teor duvidoso, se não totalmente equivocado. Fácil de serem localizadas na mídia ao mesmo tempo difíceis de serem superadas pelos divulgadores científicos, essas ocorrências mostram-se prolíficas, mesmo quando o texto é escrito por um especialista altamente treinado no setor jornalístico e num determinado campo científico.
Marcelo Gleiser, físico brasileiro radicado nos Estados Unidos, onde tem obtido algum destaque como docente de física teórica, assina uma coluna registrada como de jornalismo científico em um dos principais jornais brasileiros. Em seus textos, Gleiser tem optado por focar temas que privilegiam o apelo popular, elaborando matérias que se caracterizam por tal simplificação do campo conceitual da ciência, que frequentemente incorre em imprecisões inadmissíveis para um leitor com conhecimentos medianos. Como vários outros profissionais que escrevem artigos para jornais e revistas, Gleiser emprega como sinônimos conceitos distintos e caros à Física, mencionando-se como exemplo os conceitos de matéria e de massa (Martins, 1998; Perez, 2003).
Texto retirado do artigo: Elementos fundamentais para a prática do jornalismo científico.
*Cláudio Bertolli Filho é docente no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e no Programa de Pós-Graduação em Educação ara a Ciência da Universiade Estadual Paulista (UNESP).
04/11/2013