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A Linguagem dos bebês

Laura F. Thomaz

     Os bebês têm sua própria forma de comunicação, além de conseguir estabelecer processos de significação de si e do mundo, apesar de não ser clara e muitas vezes não ser compreendida pelos pais e profissionais.

Assim como no caso da inteligência e do pensamento, o desenvolvimento da fala passa também por diferentes períodos e processos, até que o bebê comece a utilizar palavras completas e a montar múltiplas frases. Aos poucos, o bebê aprende a usar palavras para descrever o que vê, ouve, sente e pensa.

     Esse processo, no entanto, é relativamente lento. Como nos informam vários manuais sobre a aquisição da fala, as crianças normalmente aprendem a falar durante os dois/três primeiros anos de vida. Inicialmente, em torno dos 2 meses, o bebê começa a emitir algumas vocalizações, sem ter ainda o sentido intencional de comunicação. Aos 4 meses, começa a vocalizar quando se fala com ele. Já aos sete meses, começa a vocalizar sílabas de maneira mais definida e em torno dos 9 meses, começa a ser capaz de verbalizar uma palavra com duas sílabas, ao mesmo tempo em que passa a imitar sons. De maneira usual, aos 12 meses a criança já fala em torno de 3 palavras e há um aumento no número de palavras verbalizadas até que, em torno de 21-24 meses, a criança passa a associar duas ou mais palavras, o que implica em estar começando a elaborar frases. Contudo, de acordo com Kátia de Souza Amorim, especialista em Psicologia do Desenvolvimento Humano e coordenadora de projeto nessa área, isto são apenas aproximações, já que há crianças que aprendem a falar um pouco mais cedo ou mais tarde.

      Porém, Kátia afirma que, mesmo antes de aprender a falar, os bebês podem ser considerados como sendo sujeitos ou agentes da linguagem. Ela vem buscando compreender a linguagem dos bebês com o objetivo de investigar se e como ocorre este processo nos dois primeiros anos de vida. Ela afirma que a ideia de estudá-la, de entender processos de significação e de comunicação presente nos pequenos, começou no âmbito de um Projeto Temático da FAPESP, coordenado pela professora Maria Clotilde Rossetti-Ferreira, da FFCLRP-USP. “Na época, várias foram as pesquisas que buscaram acompanhar um grupo de 21 bebês que tinha acabado de ingressar na creche. Nosso objetivo era estudar o processo de ingresso e de adaptação deles ao ambiente da educação coletiva. 

      Assim, ao longo de quatro meses, foram realizadas cerca de três horas de gravações diárias. E, através delas, analisávamos a interação dos bebês com as mães, educadores e mesmo com as outras crianças, no intuito de avaliar a adaptação ao novo ambiente, aos novos parceiros (educadoras, outras crianças e familiares das outras crianças), a nova rotina (horários, sono, alimentação, atividades) e, ainda, como se davam os novos modos de relação com os familiares.” 

     Com a análise dessas gravações, Kátia Amorim e Maria Clotilde conseguiram observar indícios de processos de interação e de comunicação entre os bebês, mostrando que, de alguma maneira, eles eram capazes de se expressar e compreender o que se passava ao seu redor mesmo ainda não sabendo falar. “Levantamos uma série de questões relativas a como seria possível eles ‘entenderem’, agirem e se expressarem de uma forma que se podia dizer “culturalmente apropriada” ao meio. No conjunto, já acompanhamos cerca de 40 crianças com até 13 meses de idade, em diferentes relações e contextos. Temos estudado o bebê em casa, na creche e em instituição de acolhimento (abrigo). E, temos analisado a interação e comunicação dos bebês tanto com familiares, como com educadores, profissionais da instituição de acolhimento e outras crianças (incluindo pares de idade).

      Verificamos que há importantes processos de comunicação, através do que o bebê se utiliza de variados recursos, de maneira ativa e intencional (isso não quer dizer que ele tenha “consciência”). “No cotidiano dessas crianças, verifica-se que os comportamentos dos bebês enunciam problemas, que são dirigidos a alguém e inclusive chegam a antecipar uma possível resposta, desde muito precocemente. O gesto tem ainda uma forma diretamente relacionada à ação no mundo de onde deriva, construindo papéis e formas de ser e de estar no mundo”.

      A capacidade de comunicação já existe nos bebês desde o momento de seu nascimento, apesar de que aquela não é feita por meio de palavras, mas envolvendo outras formas de linguagem. Especificamente, o entendimento e a produção da linguagem se faz através do uso da linguagem corporal (gestos, posturas, expressões faciais, etc.) e da linguagem oral - choro e arrulhos (que é a emissão de um som gutural, que sai da garganta, que se assemelha ao arrulho dos pombos) já que ainda não conseguem falar. Ao mesmo tempo, aos poucos, os próprios adultos começam a compreender e a diferenciar os sentidos da comunicação do bebê como, por exemplo, quando seu filho recém-nascido está chorando (pode ser fome, cólica, ou simplesmente por querer colo). 

  

      No início, portanto, os pais têm bastante dificuldade para entender a linguagem de seus bebês. Contudo, a mútua expressão e compreensão da comunicação do outro vai acontecendo através de inúmeras negociações entre os adultos, outras crianças e o bebê, nos seus intermináveis contatos no cotidiano – no banho, na hora de comer, na hora do sono, na atividade de brincadeira. Ainda, a apreensão de alguns sentidos pelo bebê se faz através de outros elementos que acompanham a fala, como o ritmo, o tom de voz e a emoção/afeto que a acompanha.
     No curso do desenvolvimento e de aquisição da linguagem verbal, um dos recursos que os pequenos fazem uso é a imitação. 

 Imitação: uma forma de aprendizagem e inserção social importante para o bebê

 

      Nesse sentido, discute-se que os bebês começam a se comunicar "no mundo" muito antes de aprenderem as primeiras sílabas e de formar pensamentos e representações mentais. Um importante meio é o da observação ou da contemplação. Na observação, a criança se encontra em estado de impregnação pelo mundo. A excitação desse mundo observado não é puramente cerebral, mas se espalha pelos músculos de seu corpo que são a sede de uma atividade sentida, por vezes intensamente pela criança, se bem que imperceptível para os outros. A criança nesse estado de observação do mundo e do outro apresenta um estado em potência, que representa pré-movimento e preparação para o ato (no caso da futura linguagem falada e também do próprio pensamento).

 

      A imitação é baseada na conexão social com o outro, na relação de sociabilidade que leva à solidariedade de comportamento e de atitudes do bebê com as pessoas. “A imitação pode ser vista desde os recém-nascidos, havendo experimentos que mostram, por exemplo, a protrusão da língua pelo bebê, após olhar movimentos da língua da mãe ou do experimentador. Porém, mais do que a repetição de sons aprendidos, a imitação que se desenvolve é considerada importante, pois ela implica futuramente no desenvolvimento da representação mental. Nesses primeiros meses de vida, no entanto, a imitação ainda não é intelectual ou cognitiva, mas tem já seus primórdios, já que a ação de imitar implica no sentido de representar algo da ação do outro (parceiro ou situação)”, pontua Kátia.

       A aprendizagem por imitação é muito poderosa. Pode não parecer, mas os bebês e as crianças estão antenados a tudo que está acontecendo ao seu redor e são como esponjas, capazes de absorver cada detalhe, principalmente dos pais já que eles são como modelos para os pequenos.

            

  

Autor desconhecido

Autor desconhecido

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20/11/2013

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