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        A existência de uma economia fechada e ausência de uma lei de patentes atrasaram enormemente o desenvolvimento tecnológico brasileiro.  Do lado da demanda, as empresas brasileiras preferiam adquirir ou simplesmente copiar tecnologias estrangeiras. As multinacionais traziam seus pacotes, sem a preocupação de desenvolvimento interno.
       Do lado da oferta, grande parte das verbas se destinava à pesquisa pura, ao compromisso de se publicar um paper no exterior - que muito provavelmente seria aproveitado por pesquisadores de outros países para a produção de patentes.
   Um país pobre, de parcos recursos, financiava pesquisas genéricas, que eram depositadas gratuitamente nas prateleiras da grande despensa da ciência mundial. Depois, americanos, coreanos, japoneses, ingleses e outros, com mais espírito pragmático, se apossavam dos ingredientes, transformando-os em patentes e em instrumentos de desenvolvimento de seus países. Aos cientistas brasileiros, os louros; aos de outros países, os resultados.
       Hoje o quadro é totalmente diferente.  Com a abertura da economia, as empresas nacionais passaram a competir com as estrangeiras de quem copiavam ou compravam a tecnologia. Essa desvantagem tornou claro para todos a importância do desenvolvimento tecnológico autônomo.
    Ao mesmo tempo, o meio acadêmico passou por profundo processo de discussões internas, sobre os objetivos da pesquisa acadêmica. Acabou sendo vitoriosa a tese de que a maior parte das pesquisas - especialmente as financiadas com recursos públicos - tem que gerar resultados concretos para o país, na forma de patentes tecnologia e produtos, aumentando a competitividade da economia, a capacidade de gerar emprego e retorno social. E as empresas privadas têm que participar decididamente do cofinanciamento dessas pesquisas, especialmente quando foram desenvolvidas sob medida para a empresa. 

   Nesse contexto, a imprensa especializada passa a ter papel fundamental. E não apenas para divulgar de forma fantástica os avanços da ciência mundial, como em muitos programas de televisão. O grande desafio consiste em começar a trabalhar a questão da ciência profissional e metodicamente, identificando necessidades do lado empresarial, avanços do lado acadêmico, colocando ambos em contato.
   Durante muitos anos, tinham acesso à imprensa apenas os chamados cientistas de papel -  especializados  em  declarações  superficiais,  mas que  rendiam  manchete,  e  poucos reputados no seu ofício. O bom jornalismo científico passa pela capacidade do jornalista em separar a perfumaria do substantivo, em identificar e divulgar as pesquisas pioneiras, especialmente aquelas que possam interessar ao setor privado. Passa por ajudar a quebrar barreiras que dificultam a produção de tecnologia, por abrir a couraça das resistências empresariais aos investimentos tecnológicos. E, finalmente, por ajudar na implantação de uma verdadeira cultura tecnológica no país, convencendo os governantes da importância a ser conferida ao setor.
     Aos candidatos às bolsas de jornalismo científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), exige-se não apenas o conhecimento acadêmico e científico, mas a capacidade de entender a economia, o universo interno das empresas, e de identificar, nas pesquisas acadêmicas, aquelas capazes de se transformar em patentes e produtos.

O Jornalismo Científico

 

Luís Nassif*

 

 

Texto retirado do artigo publicado em 18 de fevereiro de 2000 na Revista Pesquisa Fapesp.
 
*Luís Nassif é jornalista e colunista da revista Carta Capital.

18/11/2013

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