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23/10/2013

      Pensar arte e lixo parece uma ideia desconexa. Afinal, constituem-se como opostos. Arte está ligada a criação, a beleza, e a harmonia. E lixo é o que representa o lugar para onde vai tudo que não significa mais nada. De acordo com Joseph Beuys, considerado um dos mais influentes artistas da segunda metade do século XX, a arte deve funcionar como um tipo de ciência da libertação. E talvez, tenha sido nesse sentido, que a gama de artistas que despontam atualmente se pautaram.  

 

    Não há medo de ousar, e essa coragem criativa torna possível a apropriação do lixo, como uma idéia material para as criações. No Brasil, apesar dos passos tímidos, os designers têm atingido qualidades tão singulares em suas produções, como é o caso de Naná Hayne, uma renomada designer de São Paulo, que transforma lixo eletrônico em diversos tipos de trabalhos artesanais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            

 

 

Entre dois mundos

Material retirado do lixo faz surgir novo tipo de arte contemporânea

 

 

Mylena Arruda

     

 

     Metamorfose global - Não são poucos os artistas que transformam o país em uma referência. O lixo utilizado em prol da arte faz famosos internacionalmente, como Jaime Prades, Vic Muniz, Debora Muszkat e Flávio Rossi. Também está nesse caminho a artista Naná Hayne que fez fama na Itália, Espanha, Alemanha, Holanda e Nova York. Apesar disso, a expansão no Brasil não a deixa muito satisfeita. “Considero pequena por falta de oportunidades”, aponta.

 

      A história de Naná começou há 10 anos, com uma impressora que teimava em não funcionar. Após inúmeras tentativas desplugando e replugando os cabos, em um acesso de raiva incontrolável, deu um puxão e os arrebentou, o que permitiu a ela descobrir a existência de fios coloridos. “É verdade que um artista não pode ver um colorido que para”, diz. Dessa forma, ela deu vida ao que seria seu primeiro trabalho. Removeu os cabos, desencapou os fios, modelou uma boca em massa plástica numa tela, agregou o cabo e adicionou pinceladas e aerografia. Da experiência, um aprendizado, Naná garante que “sempre existe o lado bom das coisas”.

    E assim começou a carreira da artista que passou a utilizar o lixo tecnológico como matéria prima para seus trabalhos. Os materiais chegam a ela por meio de doações de técnicos em informática. Quando não recebe exatamente o que precisa, Naná recorre ao que denomina de lixões de informática, na Rua Santa Ifigênia, em São Paulo, onde compra uma pá de diskets, uma medida referente à pá da construção civil e custa R$1,00. Na produção, Naná mantém o foco em reutilizar. Além do lixo tecnológico, conforme surge inspiração, agrega outros tipos de materiais. Sua arte é versátil. “Andar pela cidade observando caçambas, ou mesmo o chão, pode render opções incontáveis. Caminhar pelo bairro paulistano do Brás, por exemplo, é uma festa para quem gosta de reutilizar. É muito lixo a ser transformado”.

 

   Os processos envolvidos na confecção dos objetos são ecologicamente corretos. E nenhuma das peças oferece risco à saúde. Dependendo do tipo de criação, os processos podem variar, mas, algumas etapas são constantes, como a desmontagem das peças, a separação dos componentes, a organização por semelhança e tamanho, a remoção dos pontos de solda e a higienização dos objetos. Após os processos, segue-se a criação que, no caso de Naná, é espontânea. “Não consigo explicar meu processo criativo. Ele simplesmente acontece. Às vezes, olhando para um pedaço de sucata; às vezes acordo com uma nova idéia ou começo a colocar algo em prática e no final mudei tudo”. Desses insights, surgem opções de produtos como telas, esculturas, troféus, painéis, objetos de decoração, bolsas e peças de bijuterias como anéis, colares, brincos.

 

    São chamados de consumidores conscientes os clientes que adiquirem esse tipo de trabalho. De acordo com Naná, esse público é naturalmente atraído por arte.  Para ela, a consciência ecológica tem aumentado, mas o respeito pelo trabalho não. “A falta de respeito pelo trabalho do artista/artesão é enorme em quase todo o mundo, mas no Brasil beira à revolta”. Ela acredita que esse problema é ocasionado pelos grupos que se aproveitam do tema

preservação global para desenvolver o marketing verde de maneira não verdadeira.

 

     Na carreira, a artista prossegue com os mesmos sonhos, conseguir patrocínio para poder colocar em prática muitas de suas ideias e atingir mais pessoas para a eco-educação. Naná ministra cursos, oficinas e organiza mostras. “Eu trabalho com reutilização. Reciclagem é um processo industrial. E sou adepta do exemplo, acredito que é o modo mais simples de alguém aprender sobre o que quer que seja, e, no caso da educação socioambiental, não é diferente", frisa. 

 


Quer saber mais sobre o trabalho de Naná Hayne, confira em: http://nanahaynearte.blogspot.com.br/

Van Gogh Colors, feita com fios e placa de ci (Foto Naná Hayne)

Gennaro Sogno, feita com fios e pó de soldas (Foto Naná Hayne)

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