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Mylena Arruda
Jornalismo científico no Brasil:
os desafios de uma longa trajetória
Wilson da Costa Bueno*

Foto: Marcos Santos (USP Imagens)
Texto retirado da Introdução do artigo: Jornalismo científico no Brasil: os desafios de uma longa trajetória.
*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.
O jornalismo científico no Brasil tem uma trajetória singular. Na verdade, os seus primórdios coincidem com a própria história da imprensa brasileira, visto que nosso pioneiro, Hipólito da Costa, fundador do Correio Braziliense, já o praticava no final do século XVIII. A partir de um contato estreito com os cientistas, muitos deles compartilhando a condição de seus amigos e suas fontes, a quem recorria com frequência e aguçada curiosidade, Hipólito da Costa produziu notícias e relatos, especialmente, versando sobre as maravilhas da botânica, da agricultura e sobre as doenças que grassavam ao seu tempo. Evidentemente, como acentua José Marques de Melo, tais relatos carecem de “difusão pública, embora estejam sintonizados com o espírito da época”. Logo, não é preciso procurar muito para perceber que a produção jornalística brasileira encerra a pauta de ciência e tecnologia em seu DNA, um legado que Hipólito da Costa nos deixou e que, ao longo do tempo, tem produzido filhos pródigos.
Há mais de um século, por exemplo, já contávamos com publicações especializadas de prestígio, como os periódicos voltados para a difusão da pesquisa agropecuária, sementes férteis do jornalismo agrícola nacional, como O Fazendeiro (1901) e a importante revista Chácaras e Quintais (1909).
Não podemos deixar de mencionar a contribuição inestimável de José Reis, merecidamente considerado o decano do jornalismo científico brasileiro, falecido em 2002, que, durante 60 anos, sem interrupção, produziu artigos, livros e coordenou programas de rádio, inserindo a prática da divulgação científica no Brasil, neste século, dentre as melhores em todo o mundo.
Ainda que não seja escopo deste trabalho, de fôlego curto, recuperar toda a saga da divulgação científica brasileira, devemos ressaltar o fato de que ela representa uma verdadeira escola. Na verdade, é lícito admitir que ela tem sido fruto mais do trabalho abnegado, incansável, de pesquisadores e jornalistas ilustres do que da sensibilidade de empresários da indústria da comunicação e dos editores dos nossos principais veículos.
Aqui, até como justa homenagem, é preciso registrar a contribuição do médico e jornalista Júlio Abramczyk, do saudoso Gastão Thomaz de Almeida, dos jornalistas Diógenes Vieira Silva, Flávio Dieguez, Marcelo Leite, Martha San Juan França, Mônica Teixeira, Sérgio Brandão, José Monserrat Filho, Luisa Massarani, Mariluce Moura e Eduardo Geraque, dos cientistas Oswaldo Frota Pessoa, Carlos Vogt , Crodowaldo Pavan (recém-falecido), Rogério Cerqueira Leite, Ronaldo Mourão, Ildeu de Castro Moreira e Marcelo Gleiser, bem como dos colegas Fabíola de Oliveira, Graça Caldas, Simone Bortoliero, Cilene Victor da Silva, Cidoval, Ruth Rendeiro, Ulisses Capozzoli, dentre muitos outros quetrabalharam (e têm trabalhado), com competência, para favorecer o processo de democratização do conhecimento científico.
Didaticamente, podemos resgatar a história da divulgação científica, e do próprio jornalismo científico brasileiro, levando em conta dois grandes momentos: o primeiro deles, que percorre do início da nossa imprensa até o final da década de 1960, e o segundo a partir da década de 1970 até os nossos dias.
Dois marcos tipificam e legitimam esta divisão: a multiplicação, em nosso País dos cursos de jornalismo, particularmente, aqueles vinculados a universidades públicas, o surgimento e consolidação das publicações, cadernos, editorias e programas especializados em ciência e tecnologia.
21/10/2013